boing_boom_tschak

boing boom tschak

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dezembro, 2004

Boing Boom Tschak é um livro de Daniel Solyszko, para o qual fiz as fotos. Mostra um recorte sobre a cena da música eletrônica, com enfoque nos djs e inaugura nosso estilo de reportagem “les professionnels”.

A diagramação é de Livia Almendary. Em especial, devido às limitações de softwares proprietários de diagramação na época, tive de refazer toda a diagramação em 2007, tentando ser fiel ao máximo (e dentro dos limites do possível) às intenções de Livia. A letra, porém, ficou um pouco diferente.




Introdução (Daniel Solyszko)

A idéia desse livro surgiu de uma série de acontecimentos e idéias ocorridas em diferentes momentos da minha vida, especialmente nos últimos quatro anos. Desde a minha adolescência punk eu mantenho um caso sério de obsessão compulsiva com discos e assuntos relacionados à música. Até meados de 1997, 98, eu (como milhares de outras pessoas) execrava quase todos os estilos de música eletrônica por me parecerem iguais, repetitivos e elitistas.

Foi nessa época que bandas como o Prodigy e os Chemical Brothers (e depois Fatboy Slim, Daft Punk, Underworld) começaram a fazer um som que incorporava fortes elementos de rock (basicamente a única coisa que eu ouvia até então) a um som rápido e nervoso, mas ao mesmo tempo altamente empolgante e dançável. Após alguns meses de relutância, finalmente fui me convencendo de que aquilo era um grande barato e comecei a me interessar e ir atrás dos discos, não sem um certo distanciamento inicial (era comum achar que techno era bom e house ruim, por exemplo).

Mas era fascinante todo mês descobrir sons que pareciam vir de outra galáxia e que soavam melhor do que qualquer outra coisa, estando eu chapado ou não. Comecei a garimpar os sebos pelos artistas precursores do gênero, cujos LPs eram vendidos muitas vezes por preço de banana no centro da cidade. Era realmente excitante chegar em casa com um Bomb the Bass comprado por dois reais debaixo do braço e ouvir a música esquecida da abertura do Clip Trip (“Beat Dis”) e ainda ter a satisfação idiota de fazer um scratch tosco em cima do disco.

Em 2001, eu tive a oportunidade de morar em Londres com alguns amigos. Ao mesm o tempo em que eu mantinha sub-empregos de dia lavando pratos e limpando latrinas, torrava o salário no circuito de shows, clubes e raves da cidade. A disponibilidade para querer conhecer e entender aquele mundo bizarro era enorme, e os primeiros contatos com ecstasy e ácido mudaram a vida e visão de mundo não só minha como das pessoas com que eu convivia. Não me interessa fazer apologia às drogas, mas naquele momento e lugar específicos elas desempenharam um importante papel de reinterpretação do mundo, uma transição de um niilismo exacerbado para um certo otimismo cínico.

Voltando para o Brasil, eu comecei a checar o equivalente àquele cenário. Embora me parecesse pequena, fragmentada e um pouco elitista demais pro meu gosto, com o tempo comecei a entender as diferenças e aprendi a apreciar alguns aspectos da cena brasileira. Nos últimos anos também houve um crescimento cada vez maior de gêneros como o techno e o drum ‘n’ bass, sem contar a recente (e tardia) descoberta e consagração do funk carioca em SP, talvez o único gênero genuinamente brasileiro de música eletrônica, que por ser popular foi visto com preconceito durante vários anos.

Assunto cada vez mais freqüente em cadernos culturais, a música eletrônica já foi assunto de alguns livros publicados no Brasil. Por esse motivo, eu inicialmente descartei a idéia de fazer um TCC sobre o tema. Mas pensando melhor, percebi que ainda existem muitos enfoques não explorados e que eu poderia de alguma forma contribuir com novas discussões.

Logo de cara estipulei algumas idéias que eu queria seguir à risca. Em primeiro lugar, o foco seria dado em aspectos menos comerciais da cena: não estava interessado simplesmente em fazer fotos de balada e tratar de assuntos banais de forma superficial, até porque já existem coberturas desse tipo por aí. Me interessava ouvir os artistas, entender suas motivações, saber o que eles achavam legal, o tipo de coisa com a qual ele s não concordavam. Aí entrou minha segunda “regra”: todas as entrevistas teriam que ser feitas pessoalmente. Muitas pessoas que não tinham tempo foram prestativas e aceitaram fazer a entrevista por e-mail. Nada contra, mas eu sabia que dessa maneira eu perderia a espontaneidade que eu buscava. Fã de Hunter Thompson e de todo jornalismo que fuja às regras convencionais, me interessava participar das situações, ver as pessoas de perto, improvisar, fugir da pauta, enfim: realizar algo que fosse autêntico, não planejado e ousado.

Claro que nem tudo saiu conforme planejado, mas no final o balanço foi mais que positivo: não só conheci gente interessante (todos os entrevistados foram extremamente simpáticos, em bora nem sempre o acesso a eles seja fácil) como pude acompanhar diversas festas e me divertir no processo, ao mesmo tempo em que lia e pesquisava como um louco nas horas vagas. Situações bizarras e engraçadas sempre ocorriam no caminho, algumas delas descritas ao longo do livro.

Um último fato merece ser comentado. Os temas mais comuns de TCCs no jornalismo parecem ser de temas humanistas ou ligados ao ativismo de esquerda. Embora eu concorde que esses assuntos possam gerar reportagens de qualidade, parece haver uma limitação criativa e uma preocupação excessiva em fazer algo que possa ser considerável “respeitável”. Um dos motivos pela minha escolha foi fugir dessa solução óbvia e mostrar que é possível falar de assuntos vistos como menos importantes de forma criativa e pessoal.

A lista de entrevistados é um tanto aleatória, mas eu mantive a preocupação de mostrar gente que toca ou produz coisas que são relevantes hoje . A música eletrônica com o existe hoje já têm mais de 20 anos, e alguns gêneros começam a ficar estagnados, então há um enfoque no que eu particularmente acho que continua sendo interessante e criativo. Mantive também a idéia de entrevistar pessoas cujas músicas e idéias me interessavam, e não apenas nomes que estão em evidência.

Como quase todos os gêneros e sub-gêneros me interessam, acho que consegui um retrato razoavelmente abrangente e diversificado. Alguns nomes ficaram de fora de vido ao prazo de entrega, mas como esse é um projeto que eu pretendo dar continuidade pessoalmente, eles poderão aparecer numa versão futura. Fica aqui então um retrato caótico de um mundo insensato, onde as contradições são freqüentes, mas onde nunca faltam idéias.

Boa viagem!


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Written by qazav_szaszak

24 de abril de 2008 às 18:24

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