revista_fulgencio

revista fulgêncio

PDF, 104 pgs.
Download: 9,3MB.

dezembro, 2003

A Revista Fulgêncio surge a partir de cinco semanas de reportagem percorrendo o baixo/submédio Rio São Francisco, em quatro estados brasileiros, durante janeiro/fevereiro de 2003. Trata sobre o uso da terra e da água, reassentamentos por barragens, projetos de irrigação, pessoas. Todo o trabalho foi feito com Livia Almendary – as fotografias mais bonitas também são dela. As imagens estão em alta qualidade, e o PDF já vem com as marcas de corte.





Introdução

A idéia de realizar esta revista nasceu com Simone Iwasso, durante o ano de 2002. A então estudante de jornalismo queria percorrer o São Francisco e registrar as diferentes comunidades que vivem às suas margens, como projeto de conclusão de curso, mas não chegou a fazê-lo, tendo se formado naquele ano. Assim, inspirados pelo projeto, seguimos nós no começo de 2003 para subir o mesmo rio, em sua parte nordestina.

O nome da revista homenageia o trabalhador e sindicalista Fulgêncio Manuel da Silva, assassinado aos 61 anos quando telefonava em uma agrovila do projeto de reassentamento que hoje leva seu nome, em Santa Maria da Boa Vista (PE). Era o ano de 1997 e Fulgêncio era conhecido por seu ativismo em defesa dos direitos das famílias deslocadas pela represa de Itaparica e por combater a violência no chamado ‘Polígono da Maconha’, área que passa pela região e se estende até Cabrobó (PE) e norte da Bahia, onde impera o plantio ilegal da droga. Em sua vida, fez parte de entidades locais importantes, como o Pólo Sindical dos Trabalhadores Rurais do Submédio do São Francisco, e do Partido dos Trabalhadores de Pernambuco (PT – PE).

Fulgêncio foi morto por motivos políticos, porque desafiava a estrutura de poder local, fosse ela ‘oficial’ ou não. Em nossa breve visita de cinco semanas a algumas cidades de Alagoas, Pernambuco e Bahia – registrada nas matérias aqui publicadas -, pudemos notar algo melhor resumido nas palavras da arqueóloga Niède Guidon, da Fundação Museu do Homem Americano: ‘o nordeste não é miserável; ele é mantido miserável’.

Encontramos muitas pessoas que buscam alternativas sustentáveis, como o pesquisador João Suassuna, da Fundaj, agricultores orgânicos da ong IRPAA e os usineiros da Usina Coruripe. Mas ainda são vozes dissonantes: em muitos lugares, as histórias de falta de seriedade nas políticas públicas se repetem. No município de Serra do Ramalho (BA), o prefeito trabalha de segundas, quartas e sextas-feiras, cuidando de seus negócios pessoais nos dias restantes; em Santa Maria da Boa Vista, cidade já citada anteriormente, as famílias reassentadas depois da construção da barragem de Itaparica esperaram dez anos até que a Chesf instalasse o projeto de irrigação prometido. Praticamente sem outras possibilidades de emprego por estarem isolados numa área rural onde não há plantio sem irrigação, muitos agricultores se envolveram com o cultivo da Maconha, aumentando muito os índices de violência local. Em Olho d’água do Casado (AL), as agrovilas de Nova Esperança II não possuem infra-estrutura mínima, mesmo depois de três anos da portaria que regulamentou o assentamento do Incra. Estão a dois quilômetros do rio São Francisco e não possuem água encanada.

Este último exemplo, em particular, mostra um outro lado da faraônica proposta de transposição de águas do ‘Velho Chico’ para os estados como Ceará e Rio Grande do Norte, retomada no governo Lula. A pergunta é simples, e é feita pelo assessor da presidência da própria Chesf, João Paulo de Aguiar: ‘e quem está ao lado do rio? O que pensará essa gente que vive na miséria a menos de três quilômetros das margens e vê o governo gastar bilhões para tirar água, fazê-la vencer declives e mais declives até chegar a outros estados?’ O desfecho dessa história ainda está por vir.

Um ponto positivo, porém não desprovido de ambigüidade, é que grande parte dos adultos entrevistados mostrou estar mais satisfeita porque suas crianças já tinham mais estudo do que eles. Por trás dessa afirmação, no entanto, está o fato de que as crianças ou os jovens se preparavam não para conviver com o campo – onde nasceram e cresceram -, mas para buscar uma vida melhor, fora dele.



voltar para texto

Written by qazav_szaszak

24 de abril de 2008 às 19:06

%d blogueiros gostam disto: